Ou como ir de oito a oitenta.
Era para ser um dia como qualquer outro. Levantei na hora de sempre, deixei a sobrinha, aquele cuti-cuti da Clarinha na creche, minha irmã no trabalho, e fui eu trabalhar.
Desde quarta feira que a internet empresarial provida pela Oi BrasilTelecom está fora do ar. Então, não tinha muito serviço.
Conversei com um membro da CPI da Saúde instaurada pela Câmara de Vereadores aqui de otacity. Eu trabalho na saúde pública municipal.
Uma situação triste. Nós nos dedicamos ao próximo, sentimos as dores deles, mas somos amarrados pela burocracia do Sistema Único de Saúde, e pelos parcos recursos financeiros. E, em consequencia, CPI em cima de nós. Isso estressa, desanima, desmotiva. Também ganhamos pouco, muito pouco. É mais pela camisa mesmo, por algo em que acreditamos. Mas voltemos ao assunto do post.
Chego em casa, a uma da tarde, para almoçar hamburger com arroz, e dou de cara com uma execução judicial. Tenho até terça feira para levantar pouco mais de três mil e trezentos reais. Não para mim, para meu pai.
Meu pai jaz em uma cama, vitimado por dois AVCs (derrame) e sem uma perna, com uma mentalidade de criança de, sei lá, 8-10 anos, consequencia dos AVCs.
O pai aposentou-se anos atrás, como servidor público. Ele é técnico em contabilidade. Ele esqueceu de dar baixa no CRC dele. E tem anuidade. Ele não pagou. Desde 2001.
Pela atual condição dele, eu sou seu representante legal, devidamente homologado por uma procuração pública. Então, os 3300 reais, eu tenho que dar jeito.
E não, não tenho. Nós não temos.
Aqui em casa, podem ficar surpresos, trabalhamos de dia para ter a janta. e trabalhamos de noite para ter o almoço do dia seguinte.
Foda, muito foda para quem (meu pai) anos atrás poderia sair pelado de casa e chegar no centro da cidade bem vestido e de carro zero.
Mas, é a vida. Cada um colhe o que planta, e, depois que a mãe morreu, o pai, aquele que eu conhecia, mudou.
Nasceu um novo homem, que não aproveitou as oportunidades que surgiram, que preferiu um caminho que hoje eu também percorro, e que acabou culminando em várias situações desagradáveis e, agora, nessa execução.
Em outros tempos, tal dívida seria paga com um sorriso de desdém na cara. Hoje, preocupa, tira o sono.
Mas o dia foi peculiar porque, apesar dessa péssima notícia, passei uma noite absolutamente agradável, em companhia de bons amigos, trocando boas idéias, bebendo uma cervejinha, sem exagero, bem diferente da semana passada, quando expulsei a banda que tocava no Green Bar.
É muito interessante a flutuação que se passa em um único dia, de momentos de desespero, de raiva e ódio, à complacência, a amizade.
Podem, meus leitores, não acreditarem, mas se não fosse esse momento que passei nessa noite, com meus bons amigos, acho que teria feito uma cagada bem grande, do tipo daquela em que se atenta com a própria vida.
Falando nela, minha vida é uma sucessão de lambadas, de dar com a cara na parede, uma atrás da outra, desde que me conheço por gente.
Vivi, em função de minha família. Tornei-me "adulto" muito cedo. Abri mão da melhor fase da vida de uma pessoa, a adolescência, porque meus próximos, meu pai, minha irmã com7 anos, com a ausência da minha mãe, precisavam de mim. Sei que não deveria ter tomado essa atitude, sei disso. Sei também que vou acabar sozinho, mas não me arrependo.
Quando, passado anos de peleja, de erros, de alguns acertos, pensei que, finalmente, algo chamado estabilidade ou segurança havia chegado a minha família. Ledo engano.
Um julgamento a revelia e, de noite para o dia, projetos, sonhos, mais uma vez postergados.
Ainda bem que minha compleição é avantajada. Os ombros são largos, a barriga sustenta um caneco de chopp. Eu aguento mais essa, pelo menos assim espero.
Em tempo, vendo terreno no município de Porto Belo, praia de Perequê. Preciso pagar essa dívida. O terreno, situado no loteamento Jean e Jeovani vale, segundo uma fonte que consultei hoje (morador local), cerca de 100 mil reais. Não acreditei muito, afinal pagamos apenas 20 e pouco de IPTU por ano. Bom, não interessa o valor dele. Meu pai não merece mais esse sofrimento. Vendo por cinco mil, valha quanto valha.
E, finalizando, queria estar lá no Green, com meu parceiro Piolho, bebendo uma gelada.
Tendo uma vida normal.